Zé Caboclo acordou cedo e como de costume o dia ainda não tinha mostrado as caras ainda, em silêncio atravessou o quarto onde dormia com sua mulher e foi para a cozinha preparar café.
Como era quaresma Zé ficou um tempo pensando antes de colocar a água para ferver, tinha prometido que se tivesse uma safra boa na sua pequena produção de café, todas as quaresmas ele não beberia o fruto de seu trabalho. Aquela havia sido uma safra muito boa, mas o vicio do café pulsou mais forte em suas veias. Resmungando uma reza de desculpas Zé virou a imagem de Santo Antonio para a parede para ele não ver o descumprimento da sua tal promessa.
Fora da casa um relincho ecoou no meio do cafezal, seguido dos latidos frenéticos e interruptos dos três cachorros labradores que seu Zé tinha. Pensando ser o cavalo do vizinho Zé saiu porta afora para ver se conseguia enxergar algo em meio a escuridão. Nada. Os cachorros ao verem seu dono logo o cercaram. Estavam tremendo e soltando ganidos de medo, assustado ao ver os cachorros assim, Zé correu para dentro da casa em busca de seu rifle onde o encontrou no mesmo canto atrás da porta da dispensa. Sua mulher, Maria, veio ao seu encontro assustada com todo aquele barulho.
- Que ta contecendo homi? - perguntou
- Se acalme muié, acho que o cavalo do Chico ta la nu meio dus café assustando us cachorro. Vô la vê e assusta o bixo, fica quieta dentru de casa e fecha a porta quando eu sair
De volta ao quintal Zé percebeu que nenhum dos três cachorros estavam mais lá. O silêncio predominava. Maria o observava da janela da cozinha. Então novamente um relincho forte ecoou a poucos passos de onde Zé Caboclo estava, fazendo-o dar um tiro para o lugar por puro reflexo. Pelo som que se fez, Zé imaginou que acertou o tal cavalo.
Maria viu o marido caminhar para a escuridão depois de lhe fazer um gesto no ar dando a entender que tinha matado o tal cavalo.
Alguns instantes se passaram e nada de Zé voltar. Maria foi até a cozinha, pegou a sua faca de matar porco e saiu atrás do marido, antes mesmo dela pisar no último degrau que dava pro quintal, um grito alto e rouco lhe chegou aos ouvidos, era o grito do seu Zé. Logo uma chama avermelhada iluminou atrás do terceiro pé de café do cafezal. Maria ficou boquiaberta e pôde até sentir sua alma querer lhe fugir do corpo ao ver tal imagem.
Uma mula negra com cabeça de fogo estava do lado do corpo inerte e desfigurado do marido. A mula se apoiou na patas traseiras empinando-se e saiu em disparada cafezal adentro iluminando tudo com sua cabeça de fogo.
Maria foi encontrada no dia seguinte por Chico que ouvirá o tiro na noite anterior e tinha ido no vizinho para ver se estava tudo bem. Segundo Chico contou aos moradores, Maria estava deitada com a faca em mãos em cima do corpo morto de Zé Caboclo, ela estava em estado de choque e suas roupas, assim como a faca em suas mãos estavam manchadas com o sangue do marido. Os cachorros foram encontrados num mata burro nas proximidades da casa ganindo e tremendo.
Deste dia em diante Maria virou Maria Louca a mulher que matou o marido a facadas. Ninguém nunca soube o que realmente aconteceu naquela noite, apesar de Maria Louca contar sempre a mesma história, a de uma mula negra com cabeça de fogo...