Abro os olhos lentamente, a visão turva aos poucos vai clareando. Estou deitado em uma cama alta em um quarto decorado e bonito. Viro a cabeça lentamente e vejo um garoto de olhos castanhos, iguais os meus, me olhando.
- Bisa!! - exclama com um sorriso em seus lábios.
- Hey pequeno, cadê seu avô ou seu pai?
- Estão lá fora conversando com o médico
Ótimo, conversas secretas entre familiares e médicos, um clichê que nunca sai de moda.
- Como o senhor se sente Bisavô?
- Estou melhor agora meu filho. - ele sorri mais ainda, sua semelhança comigo é extraordinária, o mesmo furo no queixo, as sardas em volta do nariz, Deus queira que ele não tenha cravos e espinhas como eu tive, os olhos castanhos e o sorriso torto. Os anos passaram rápido. Mal consigo me lembrar o por quê de eu estar em uma cama de hospital. Ao tentar me ajeitar sinto uma fisgada no quadril e logo tudo vem a tona. Tinha caído no meio da sala de estar do meu neto. Velho fazendo velhice foi o que eu tentei dizer ao ver todos aqueles olhos preocupados enquanto eu tentava esconder a dor de todos. mas isso não era tudo, um vazio me preenchia, me sentia deprimido.
- O senhor vai acabar de escrever aquele livro??
Olhei novamente para meu bisneto, o único apegado a mim, não era só na aparência, mas algo nele, em sua forma de ser, me lembrava um eu de tempos atrás.
- Sim meu filho e adivinha só? Estou quase no fim, logo logo você poderá lê-lo antes de eu mandar para a gráfica. - Meu bisneto desde que aprendeu a ler, sempre leu meus rascunhos antes de manda-los para a impressão.
A porta se abre, meu filho vem andando com meu neto a passos largos, os dois sorriem, mas consigo ver a tristeza em seus olhos. Quando se é velho, muitas coisas ficam mais claras e fáceis de se notar.
- Vô boas novas, o senhor terá alta amanhã. A pancada foi um pouco feia, mas não quebrou nada. Tudo em ordem. Como o senhor se sente?
- Sinto que você esta mentindo para mim. - suas expressões mudaram, meu neto olhou para meu filho e com aceno de cabeça levou meu bisneto com ele para fora do quarto. - Se quer me deixar preocupado, esta conseguindo meu filho. O que há de errado?
- Com o senhor nada pai, é a mãe. Ela teve uma piora. Os médicos disseram que não temos muito tempo.
Só agora havia entendido o meu vazio. Minha mulher, minha companheira, minha amiga, meu amor, de anos e anos estava morrendo...
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